Novembro de mil novecentos e noventa e quatro: é lançado o concerto acústico dos Nirvana, gravado para o canal de música MTV – estava dado o pontapé de saída para o empurrão final daquilo que passou a ser um tradição, paixão e modo de estar meu e do meu primo André. Alimentados por aquelas guitarras acústicas e por todo o movimento que, de forma global, voltaria a trazer a guitarra como instrumento primordial das massas (depois da década dos sintetizadores), não mais a guitarra e o conceito de jam, bem ou mal feita, deixou de estar presente entre nós os dois. Um triângulo amoroso que dura desde então até aos dias de hoje, apesar da distância – temporária – física que actualmente nos separa. Desde concursos de talentos na escola secundária, a noite infindáveis de acampamentos em estâncias balneares nacionais com os amigos e companheiros de sempre, este hábito de tocarmos e passarmos momentos totalmente entregues à música, executado de forma boa ou menos boa, passou a ser sinónimo do nosso nome, hábito de necessidade e ritual totalmente embutido na mais pura e genuína forma de estarmos.
Será a memória e a deturpação natural do álcool o guardião das memórias e registos sonoros de todas as jams tocadas ao longo da adolescência, visto não ter havido naquela altura um acesso à panóplia actual de tecnologias que auxiliam e facilitam esse exercício – talvez seja melhor assim. Dessa forma, esse registo audio e visual fica inevitavelmente associado à euforia e alegria naturais de adolescência, adornando-o de um sentimento nostálgico e romântico pouco dado a captações digitais.
Mas tendo agora acesso a esse avanços tecnológicos e porque a euforia adolescente deu lugar ao pragmatismo do mundo adulto, parece-me de bom tom passar a fazer registos audio ou visuais desses mesmos momentos. Até porque, dado a tal distância física descrito acima, eles acabam por serem mais escassos, podendo o audio e o vídeo servir como consolo a essa mesma distância. Ou registo para memória-futura, destinado à idade em que a memória de futura ou passado pouco terá.
E assim sendo, nas próximas semanas passarei a publicar aqui vários registos audio e vídeos de uma dessas jam sessions, tocado no passado mês de Dezembro em casa da minha avó, no Alqueidão, Ourém. Envolto de frio, boa disposição e improvisação, por ali há erros, pregos e alguma falta de jeito – tudo aquilo que torna uma sessão destas genuína. Mas acima de tudo há sinceridade e amizade. E música – o mais importante de tudo. E como tal, deixemos agora as palavras de lado e demos-lhe lugar. Carreguem em play, se fizerem favor.
Difícil de acreditar, mas é este o cenário das minhas memórias de infância mais antigas.
Para além da minha paixão eterna pelo disco e todo o seu formato físico, ao longo dos últimos dois anos tenho aprendido imensamente fóruns por aí a fora sobre as diferentes técnicas de gravação, produção e, especialmente, masterização de discos. Todas as diferenças que as nuances nessas técnicas podem provocar, o digital versus o analógico, as variações na qualidade do vinil utilizado, os ‘loud’ wars dos últimos anos, a variação dinâmica, etc. etc. Não vou perder mais do vosso tempo a falar disto aqui, mas sim apenas resumir-me a um conselho para vós: façam um favor a vocês mesmos e ponham os olhos no documentário ‘Sound City’ de Dave Grohl, estreado no Sundance Festival em Janeiro passado e com uma banda sonora inédita (com pontos muito altos a meias com momentos menos bons) estreada há dias no final de Março. Creio que tudo o que diz respeito às palavras feias que escrevi ali em cima é retratado e explicado de uma forma sublime. E por gente boa. O que só torna a coisa ainda mais apetitoso. E enquanto isso, podem passar pelo mais recente programa do Plutão Anão, onde passamos em revista os 42 de vida da Sound City Studios, a meias com os melhores momentos da banda sonora do documentário de Grohl. Não se arrependerão.
Durante os seus 42 anos de vida, da Sound City Studios saíram alguns dos álbuns mais importantes do cancioneiro rock e pop. Influências que se viriam a perpetuar até aos dias de hoje e que, apesar do fim daquele espaço simbólico, não deixarão de continuar a honrar e espalhar o seu legado. Inspirados pelo documentário ‘Sound City’ de Dave Grohl, no mais recente Plutão Anão pusemo-nos à (re)descoberta de vários dos trabalhos que carregam consigo a herança daquele som analógico mítico. Isto tudo, entrelaçado com os melhores temas da banda sonora do mesmo documentário. Para escutar no Plutão Anão #62. Boa viagem.
Plutão Anão #62 – Sound City, a rodar aqui.
Por vezes, fica-se com a sensação de que se está em Portugal.
Milford on Sea tem uma prainha que é um mimo. Não tem as areias reconfortantes como aquelas que banham a nossa bela costa Portuguesa, nem é prendado com falésias de cortar a respiração ou um mar que puxe à tranquilidade ou à aventura nas ondas. Mas tem o seu quê de fascínio e de personalidade própria, dando casa a muitos kite-surfers e barracas que, com certeza, ganham grande vida no verão, permitindo o contraste absoluto entre as suas pintadas cores e a pele palidamente branco das gentes desta terra. Um belo spot para se visitar. E para fotografar para o mais recente cartaz do Plutão Anão. O programa, número 61, já se encontra no ar para escuta.
http://plutaoanao.com/2013/03/26/plutao-anao-61/
No próximo programa, daremos exclusividade à Sound City Studio. Mas por ora,
O ano de 2013 tem tido o começo fenomenal no que a novos lançamentos concerne. Qualquer coisa como o verão de 2005 foi para a colheita de vinhos tintos, a nosso ver! E apesar de não conseguirmos dar conta do recado no que a tudo que mereça passar pela nossa órbita, esforçamos-nos para pelo menos minimizar os estragos. Isto, claro está, polvilhado sempre com os clássicos. Mistura perfeita. Façam muito boa viagem.
It was cold. Fucking cold. And it was windy. Fucking windy.
[geographical location on page 2]
Nem todos temos o luxo de poder ter uma mesa voltada para uma janela voltada para uma paisagem que nos volte a levar à criatividade. Mas todos temos o luxo de voltar a fingir que temos.
Há certos registos, que por muito bons que sejam, que por muitos boas recordações que tragam e que por muitos sorrisos que trariam a quem os ouvisse, são destinados a ficarem unicamente entre aqueles que os produziram. Este é um desses casos. Mas não podia deixar passar este registo completamente despercebido e sem uma menção por aqui. E, de certa forma, pecaria ao não partilhar um segundo que fosse desse mesmo registo. E assim sendo, fica aqui feito esse mesmo exercício: um toque – apenas ao de leve – daquela que foi uma tarde especial, cumprindo após longos anos de espera uma profecia há muito anunciado. Porque o genuíno quando o é, tolera-se e admira-se. O resto, será para mais tarde recordar. De forma privada.
Decidi aceder ao convite direccionado à minha pessoa por parte da Rádio Kapa (Barcelos) para que o Plutão Anão passasse a ser também transmitido por lá. E assim sendo, passaremos a orbitar também na Rádio Kapa aos domingos às 22h, com repetição às terças-feiras às 17h e quintas-feiras às 2h. O programa irá estrear brevemente, começando a contagem desde o primeiro número até depois eventualmente apanhar os programas novos e actuais - sobre os quais, aliás, tive uma troca interessante de correspondência com a direcção da Rádio Kapa. Deixo um excerto daquilo que escrevi, que reflecte precisamente o meu frame of mind actual em relação ao meu programa.
(…) A verdade é que apesar de sempre ter dito a mim mesmo que bastaria uma só pessoa interessada em escutar-me, que continuaria sempre a gravar, a coisa na realidade acaba por não se processar totalmente assim. E explorando o teu site, já vi que partilhas da mesma opinião que eu relativamente às webrádios e tudo mais que gira à volta delas. A verdade é que, tal qual o social media veio matar os blogs, serviços como o Spotify, Pandoras, Grooveshark, etc. também vieram da mesma forma matar webrádios e podcasts. E acabo por estar a viver isto uma segunda vez, depois de já ter dedicado imensos anos à blogosfera e ter-me visto forçado a ceder à nova realidade da sua praticamente inexistência. Agora, revivo a mesma situação com o meu podcast.
Mas apesar da maré estar contra – redução drástica de ouvintes no último ano e deixar de rodar no FM de uma rádio da zona centro devido à saída de um colega meu dessa rádio – a verdade é que a minha paixão por música continua bem viva e consequentemente, a vontade de gravar estará também sempre lá. Isto tudo para dizer que, apesar de ser desmotivante, não tenciono acabar com o Plutão Anão.
(…)
É que, a meu ver, a única forma em que de hoje em dia se vai convencer alguém a trocar um serviço de streaming por uma webrádio ou podcast é oferecendo muito mais do que um simples streaming oferece – um olhar muito mais profundo, com muita informação e, de certa forma, com um sentido pedagógico. E isso é algo que me atrai imenso. Adoro ler e ler e ler e depois ouvir e explorar e investigar e descobrir a fundo vários vertentes da música. Esta última semana, por exemplo, tenho andado de volta de vários artistas dos blues dos anos 20 e 30 re-lançados pela Third Man Records (editora do Jack White) e Document Records e curtia imenso poder partilhar o que aprendi e o quão me deliciei com o auditório. Só que isso implica trabalho, tempo e dedicação, algo que (…) não posso oferecer. Ou pelo menos oferecer tanto quanto queria. Mas apesar disso, ao longo dos meus programas, tenho dedicado vários deles a situações do género, dando-lhes precisamente essa vertente pedagógica.
(…)
A minha ideia para a futura direcção do programa é precisamente entrar nas temáticas ainda mais do que me era habitual no passado, produzindo e dando mais informação sobre um determinado tema por programa. A verdade é que a minha paixão se localiza cada vez mais naquilo que se produziu no passado, querendo sempre no entanto polvilhar tudo com som novo que também se vai produzindo. Mas sinto de certa forma a necessidade e, quiçá, a responsabilidade de dar a conhecer às pessoas as bases do som que elas ouvem actualmente. Isto talvez apenas para servir de contra-ponto à velocidade estonteante à qual se descobre novo som e não se dá nem se tem o devido e necessário tempo para se poder apreciar genuinamente a música que se produz, para além de muita artificialidade e ganhos rápidos à qual muita da música actual se destina. E apesar de saber que a maioria das pessoas não tem tempo, motivação ou paciência para dedicar tempo a programas deste género, é a única forma de eu arranjar energias para continuar, pois ser simplesmente um concorrente de um serviço de streaming não é motivação suficiente para mim. E se isso implica perder ainda mais ouvintes, assim seja. Mas atenção, lá sairá de quando em vez uma chapa-cinco de programa, com uma playlist e pouco mais. Porque, como te disse atrás, infelizmente não tenho tempo para me dedicar tanto quanto queria à causa.
Comentários Recentes